Tribunal encerra mês de homenagens a Paulo Bomfim com inauguração de estátua do poeta
Missa, sarau e exposição ocorreram no mesmo dia.
Ontem (30), dia em que Paulo Bomfim completaria 100 anos, Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP), a Academia Paulista de Letras (APL) e o Serviço Social do Comércio (Sesc) encerraram as homenagens à sua vida do poeta em grande estilo: com uma missa, seguida de inauguração da estátua do Príncipe dos Poetas Brasileiros, abertura da exposição em seu tributo e sarau no Palácio da Justiça.
Durante todo mês de setembro, as instituições promoveram uma homenagem inédita, que evidenciou a importância do legado que o Paulo Bomfim deixou para a literatura brasileira, para a memória paulistana e para o Poder Judiciário paulista. As comemorações anteriores aconteceram na Academia Paulista de Letras, no Sesc Consolação/Teatro Anchieta e no Museu do TJSP. Em todos os eventos, o Migalhas, portal de notícias e artigos jurídicos do Brasil, distribuiu gratuitamente exemplares da obra "Migalhas de Paulo Bomfim".
O dia do centenário iniciou na Capela Santa Luzia e Menino Jesus, com missa celebrada por Dom Fernando Antônio Figueiredo. Em seguida, a estátua de Paulo Bomfim foi descerrada por integrantes do Conselho Superior da Magistratura, desembargadores Francisco Eduardo Loureiro (presidente), Luís Francisco Aguilar Cortez (vice-presidente); Silvia Rocha (corregedora-geral), e Luciana Almeida Prado Bresciani (presidente da Seção de Direito Público); pelo presidente da Comissão de Gestão da Memória e coordenador do Museu do TJSP, desembargador Octavio Augusto Machado de Barros Filho; pelo presidente da Academia Paulista de Letras (APL), Antonio Penteado Mendonça, e pelo presidente do TJSP no biênio 2014/2015, integrante da APL e secretário executivo de Mudanças Climáticas do município de São Paulo, desembargador José Renato Nalini.
Após a inauguração, todos foram convidados para a abertura da exposição em tributo ao Príncipe dos Poetas Brasileiros, composta por parte de suas obras, como “Creio em Ti Ó Faculdade”, “Oração aos Meus Amigos do Tribunal de Justiça”, “Oração à Cidade de São Paulo”, “Os Jovens de 32”; e itens como o Colar do Mérito outorgado à Paulo Bomfim em 2012, sua caricatura feita pelo cartunista Maurício de Sousa e o Troféu Juca Pato, recebido pelo poeta em 1981, quando foi eleito o Intelectual do Ano pela União Brasileira de Escritores. A mostra ficará aberta até 15 de outubro. Na ocasião, foi inaugurado quadro de Paulo Bomfim, obra do pintor Alison de Sando, doado ao Museu pelo desembargador Octavio Augusto Machado de Barros Filho.
Encerrando as comemorações, o trio composto pela desembargadora Maria Cristina Zucchi (piano), juiz Josué Vilela Pimentel (voz, clarinete, viola e cajón) e servidor Aldo Scaglione (guitarra) abriu o sarau em comemoração à vida do poeta. Em seguida, houve declamação de seus versos e apresentação dos Trovadores Urbanos, que musicaram alguns dos principais poemas de Paulo Bomfim.
Vale recordar – Nascido em São Paulo (SP), em 1926, filho de Simeão dos Santos Bomfim e Maria de Lourdes Lébeis Bomfim, descendente de bandeirantes e de fundadores de cidades, Paulo Bomfim cresceu rodeado de cultura, desde criança convivendo com artistas amigos de sua família, como Guilherme de Almeida e Heitor Villa-Lobos. Em 1932, o então menino presenciou a Revolução Constitucionalista, movimento que marcou sua vida e obra. Homens de sua família lutaram nas trincheiras e mulheres participaram como enfermeiras e auxiliares. Sua tia Nicota cuidou das famílias dos exilados e hoje repousa no Obelisco Mausoléu aos Heróis de 32, no Ibirapuera. À medida que os participantes envelheciam e morriam, o poeta foi, aos poucos, tornando-se a memória viva da jornada constitucionalista. “A trincheira de 32 foi a pia batismal da democracia”, escreveu Bomfim. Leia e ouça o poema “Os jovens de 32”.
Foi aluno da velha e sempre nova Academia de Direito do Largo de São Francisco, mas optou por não terminar o curso jurídico, a fim de se dedicar ao jornalismo. Iniciou suas atividades jornalísticas em 1945, no Correio Paulistano, indo, a seguir, para o Diário de São Paulo, a convite de Assis Chateaubriand, onde escreveu durante uma década a coluna "Luz e Sombra”. Além de jornais, Paulo Bomfim atuou no rádio e na televisão.
A saga de Paulo Bomfim também se confunde com a história do Tribunal de Justiça de São Paulo. Começou no Poder Judiciário com o juiz de menor Aldo de Assis Dias, onde trabalhou organizando técnicas do Juizado. É de sua autoria o Hino do TJSP, da Escola Paulista da Magistratura (EPM) e da Associação Paulista de Magistrados (Apamagis). Ele também é o único que o TJSP homenageou em vida com uma sala que leva seu nome: Espaço Cultural Paulo Bomfim, localizado no 2º andar do Palácio da Justiça, e que abriga acervo pessoal, composto por obras de sua autoria, honrarias recebidas e cópia de seu retrato feito por Anita Malfatti, além de vestes e apetrechos da Revolução Constitucionalista de 32.
A Justiça e seus integrantes foram temas de persos versos do poeta, como em “Credo”: “Creio na vocação judicante e na responsabilidade que esse ofício nos confere. / Creio no destino de um Poder que dá a São Paulo dignidade no Presente e confiança no Futuro / Creio na saga da Magistratura bandeirante que tem neste Palácio seu templo, sua tribuna e sua liturgia / Creio na sacralidade da toga, na missão de julgar, na vitória da Lei a serviço do Bem.”
Em 1945, Anita Malfatti pintou “O retrato”, obra que retrata o jovem poeta Paulo Bomfim. Seu livro de estreia foi "Antônio Triste", publicado em 1947, com prefácio de Guilherme de Almeida e ilustrações de Tarsila do Amaral. Na apresentação, Guilherme de Almeida saudou o jovem estreante como "o novo poeta mais profundamente significativo da nova cidade de São Paulo". A obra foi premiada, em 1948, pela Academia Brasileira de Letras com o "Prêmio Olavo Bilac". Na comissão julgadora, Manuel Bandeira, Olegário Mariano e Luiz Edmundo. “O prêmio que recebi de Manuel Bandeira nos anos 1940 foi o meu batismo”, disse o poeta em certa ocasião.
Suas obras foram traduzidas para o alemão, o francês, o inglês, o italiano e o castelhano. O poeta ocupou desde 1963 a cadeira 35 da Academia Paulista de Letras, da qual se tornou o decano. Ao longo de sua trajetória publicou 37 obras. Entre as persas honrarias, prêmios e reconhecimentos que recebeu ao longo da vida, em 1981 Paulo Bomfim foi eleito “Intelectual do Ano” pela União Brasileira de Escritores, conquistando o Troféu Juca Pato. Em 1991, recebeu o título de “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, outorgado pela Revista Brasília, e o prêmio “Obrigado São Paulo”, da TV Manchete. Também ganhou o “Prêmio da União Brasileira de Escritores”, por seus 50 anos de poesia. Em 2004 recebeu o troféu “Destaque Cultural”, entregue pelo governo de São Paulo. Em 2012 foi agraciado com o “Colar do Mérito Judiciário do Tribunal de Justiça de São Paulo”, a mais alta honraria da Corte paulista. Também recebeu o “Destaque Cultural 2014”, entregue pelo governador do Estado, e persas condecorações alusivas à jornada de 32.“Enquanto viver, por onde andar, levarei teu nome pulsando forte no coração, e quando esse coração parar bruscamente de bater, que eu retorne à terra donde vim, à terra que me formou, à terra onde meus mortos me esperam há séculos; por epitáfio, escrevam apenas sobre meu silêncio, minha primeira e eterna confissão: – EU TE AMO SÃO PAULO!”
Como sempre dizia Paulo Bomfim: “poetas não morrem, eles se transformam em palavras”.
imprensatj@tjsp.jus.br